sábado, 15 de maio de 2010

Caldeirão de Santa Cruz do Deserto

Caldeirão do Beato

Prof. José Cícero Gomes

Houve um tempo no nordeste brasileiro em que os beatos e beatas se multiplicavam, a religiosidade popular reinava entre a massa despossuída de bens materiais e de dignidade humana, em uma terra miserável assolada pela estiagem cíclica. O homem sem fé em Deus e no Padre Cícero (Padim Ciço), era algo raro entre os pobres sertanejos. Tão grandiosa era a religiosidade no meio popular que a Igreja Católica Oficial começou a ver com temor os movimentos do povo de caráter religioso e messiânico, e também a preocupava alguns fatos extraordinários ocorridos no meio popular.
A elite rural caririense uniu-se a cúpula do clero conservador, temendo o crescimento e a união dos miseráveis através da fé, do companheirismo, da solidariedade e da fraternidade que os levavam a perceber que eram todos iguais na mesma fé e nas mesmas dores. A borra de aristocracia caririense comença a se articular juntamente com a cúpula da igreja caririense contra a forma dos pobres sertanejos vivenciarem sua fé porque esta nova maneira de ser católico ameaçava os interesses dos mesmos.
Ainda nem se falava em religião libertadora nem no Brasil, nem em lugar nenhum, já se praticava uma nova forma de ser católico no Cariri cearense pelo Padre Cícero Romão Batista, pelos beatos e pelos romeiros da Mãe de Deus. Uma Igreja de vanguarda onde havia a valorização do leigo, e paralela a Igreja Católica oficial Esta religiosidade do meio popular resultou na articulação de grupos heterogêneos que formaram a unidade ideológica de caráter messiânico que marcou a comunidade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto sobre a liderança do beato José Lourenço.
É de fundamental importância esclarecer que havia dois beatos de nome José, um era serviçal do Padre Cícero, e o outro era o beato José Lourenço líder religioso do povo do Caldeirão. Este último chega a Juazeiro do Norte no ano de 1890, vindo do Estado da Paraíba. Zé Lourenço como era chamado pelos seus irmãos de fé e infortúnios, era paraibano.
Atraído pelas noticias das ações beneméritas de caráter humanitário e pelos milagres do padre Cícero muitos agricultores sem terras chegaram a terra da Mãe de Deus fugindo da fome, entre estes muitos que chegaram em 1890, estava José Lourenço. O jovem paraibano Zé Lourenço como era chamado o beato ao chegar a Juazeiro do Norte, com a idade de vinte anos . José Lourenço nasceu em 1870, filho de agricultores sem terra, cresceu vendo seus pais agregado à terra de um coronel latifundiário e explorador. Aos vinte anos ele fazia parte de uma irmandade de penitentes (uma fraternidade de homens e mulheres sofridas unidos pela fé, penitência e a oração). Ele era um agricultor experimentado e tinha muito amor à terra e ao trabalho da roça, era um homem perseverante de temperamento agradável e espírito tenaz, algo que contribui para se tornar líder de um povo.
O padre Cícero encaminha o beato com sua gente para o sítio Baixa Dantas de sua propriedade, sítio este que mais tarde fica para os padres salesianos, após a sua morte em 20 de julho de 1934. Esta propriedade do padre Cícero ficava próximo do Crato, ali o beato se fixa com sua gente e prospera. Alguns historiadores não conhecedores dos fatos afirmam que esta propriedade era
de um tal coronel João de Brito, pecam nesta afirmação porque não existiu um coronel, mas um major João de Brito e era dono de uma pequena propriedade próximo de Juazeiro. Em 1914, o perímetro do sítio Baixa Dantas sofreu os resultados negativos da guerra, as plantações foram destruídas pelos inimigos do Padre Cícero, obrigando assim, ao beato e a seu povo se refugiarem em Juazeiro sob a proteção do Padim Ciço.
Em 1926, o beato José Lourenço fixar-se com seu povo na serra do Araripe no município do Crato numa localidade que ficou conhecida como Caldeirão do beato ou da Santa Cruz do Deserto. Quanto ao caldeirão há muitas afirmações erradas em alguns trabalhos, alguns dizem que o caldeirão era um sítio do Padre Cícero, mas erram duas vezes, primeiro porque não era um sítio e segundo porque nunca foi do Padre Cícero. O caldeirão era terras devolutas não agricultáveis que o beato José Lourenço juntamente com seu povo transformar em terras agricultáveis.

A formação social do Caldeirão

Vejamos inicialmente, como se deu o processo migratório de vários rincões do sertão nordestino para a região do Cariri cearense na década de noventa do século XIX e nas décadas de dez e vinte do século XX.
A formação social da comunidade do Caldeirão do beato Zé Lourenço formou-se por um único grupo social praticamente, por um exército de famintos retirantes que no início contabilizavam cerca de 400 famílias que foram atraídas pela pregação do beato. Famílias estas ávidas, por pães, justiça social e por um milagre que viesse mudar a sina ingrata de um povo cansado dos castigos da seca e da exploração patronal que os condenavam a miséria, a fome, a opressão, e a exclusão social.
Acabaram tendo proteção do Padre Cícero Romão Batista. O sacerdote lhe concedeu o direito de habitar uma propriedade abandonada, num sopé da serra do Araripe. Não demorou muito, onde fundou uma comunidade com base na fé, no trabalho e no amor ao próximo, a comunidade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto.
Quanto aos dados estatísticos sobre o número exato de homens, mulheres e crianças no Caldeirão não temos por que nunca foi feito um censo nem pelo beato, nem tão pouco pelo Estado que não se preocupava com esta gente até o momento que estes ameaçaram a normalidade do status-quo. Mas segundo pessoas que viveram sua juventude em Juazeiro do Norte na época da existência do Caldeirão do beato Zé Lourenço a estimativa é de 400 famílias, o saudoso senhor José Afonso Alves juazeirense que residia na época que foi entrevistado na Rua São Paulo 1410, eles deixou claro que a população de Juazeiro do Norte em 1932 não ultrapassava a casa de dez mil habitantes. Quanto ao Caldeirão não foi encontrados dados oficiais, mas os dados de Juazeiro conferem.

A articulação dos inimigos do Caldeirão

A idéia de que o Caldeirão foi uma “conspiração do silêncio”, um “Canudos Menor” e o beato José Lourenço teria reeditado Antônio Conselheiro na chapada do Araripe, no Sul do Estado do Ceará no início do século XX. Vem-nos a mente quando não conhecemos os fatos ocorridos no Caldeirão de Santa Cruz do Deserto.
De certa forma há muitas coisas em comum, mas José Lourenço difere do Conselheiro porque não há um discurso anti-republicano, o que há é uma pregação que chama campesino do Cariri Cearense a se libertar de toda forma de opressão do corpo e do espírito. A religiosidade popular que fomentou a fraternidade, a união e o trabalho produzindo desenvolvimento e dignidade humana na comunidade do beato. Foi o motivo que levou a elite rural local juntamente com a cúpula da Igreja do Crato, articularem o fim do Caldeirão do beato Zé Lourenço.
Criaram varias inverdades, tais como o povo do beato estaria adorando um boi como o povo de Moisés, o tal boi era Mansinho o seu nome, um boi que o Padre Cícero havia ganhado de presente de um romeiro, este fato se dar ainda quando o povo do beato ainda vivia em Baixa Dantas. O Caldeirão passou a ser visto pelos poderosos como uma ameaça maior. Logo, as calunias e as difamações sobre o beato e seu povo também se tornaram maiores e mais violentas, sob a liderança do bispo da cidade do Crato chegaram a dizer que o beato estava casando e batizando, fizeram uma denuncia formal na delegacia deste município afirmando que o beato era uma ameaça para a sociedade caririense, a queixa é registrada e o delegado do Crato manta uma intimação para o beato José Lourenço por um soldado. Este infeliz é encontrado morto por um chofer (motorista), e chega ao Crato pinicado de peixeira (faca) e este homicídio é atribuído ao beato e seu povo pelas autoridades do Crato que só queriam uma desculpa para destruir o Calderão de Santa Cruz do Deserto, até hoje não se deu comprovação da veracidade da culpa do beato e do seu povo neste crime, nem se foi uma artimanha (uma maquinação) da classe dominante para por a culpa em um povo ordeiro, trabalhador e tementes a Deus.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Povo pega em armas sob ordens de Floro Bartolomeu da Costa para defende o Padre Cícero



Professor José Cícero Gomes*

Não são raros artigos degradando ou exaltando apaixonadamente a imagem do padre Cícero Romão batista tenho a convicção que a história deste controvertido Brasileiro deve ser repensada e recontada a luz da razão, a primeira tentativa foi feita nos anos 60 pelo sociólogo estadunidense Ralph della Cava, em sua obra Milagre em Juazeiro. Trabalho este que durou 12 anos de sua vida para fica pronto e lhe rendeu o doutorado em sociologia. Não basta ler o trabalho de alguns incautos desinformados, e sair reproduzindo falsas verdades. Faz-se necessário repensamos a história do Cariri cearense do início do século XX, sem paixões e leviandades, ou simplesmente o que todos vêm fazendo. Reproduzir inverdades a cerca do conflito entre Marretas e Acciolis ocorrido no Ceará em 1914, tendo como palco o Juazeiro. Essa questão nos leva a indagar: A quem interessa atacar a imagem do Pe. Cícero? E a quem interessa exalta? Não podemos esquecer que a interpretação historiográfica do historiador depende do seu ponto de vista sobre os fatos e de sua ideologia.

Não foi Padre Cícero que convocou os romeiros para a luta contra as forças da capital em 1914. Mas, Dr. Floro usando de um estratagema cooptou os sertanejos, sabendo da fidelidade dos romeiros ao seu "Padim Ciço". Dr. Floro alega que Franco Rabelo estavam enviados homens para arrancar a cabeça de Padre Cícero. Logo ele convenceu os romeiros a defender seu Padrinho, o sertão nordestino foi novamente abalado por uma grande revolta popular de motivação religiosa, mas de caráter político ocorrida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri interior do estado do Ceará.

Padre Cícero afirmava categoricamente que a chefia desse movimento, coube a seu grande amigo Dr. Floro Bartolomeu da Costa. A revolução de 1914 foi apoiada pelo Governo Federal e tinha por objetivo de depor o Presidente do Ceará, Cel. Franco Rabelo. Com a vitória da revolução, Padre Cícero reassumiu o cargo de prefeito, pois ele havia sido retirado pelo governo deposto, e seu prestígio cresce muito no Juazeiro e região. Sua casa, antes era visitada apenas por romeiros, passou também a ser visitada por políticos e outras autoridades. Porém, o padre Cícero nunca abriu mão de sua identidade sacra, do seu papel de guia religioso, de líder espiritual de seu povo, para se tornar um político profissional, tampouco abriu mão da mística do “milagre” e de sua visão messiânica, simbólica do catolicismo popular, daquele primeiro sonho que teve quando Cristo encarregou-o de cuidar do Juazeiro e de seu povo. Este perfil sem dúvida não de um “Coronel” latifundiário ou de um político das classes dominantes como alguns historiadores por desconhecer os fatos tentam pintar um padre coronel. Após a proclamação da República no Brasil, em 1889, o quadro político-econômico do Ceará começou a se transformar. Alguns anos depois, teria início a poderosa oligarquia acciolina, que recebeu esse nome por ser comandada pelo comendador Antônio Pinto Nogueira Accioli, que governou o estado de forma autoritária e monolítica entre 1896 e 1912. Seu sucessor, Franco Rabelo (1912-1914). Chega ao poder, obtendo o referendo de apenas 12 deputados, quando necessitava de 16. O acordo e a aproximação de Rabelo com o grupo político de Paula Rodrigues levou muito ex-aliados para oposição. Rabelo acabou renunciando em 14 de março de 1914 diante da forte oposição do padre Cícero e de Floro Batolomeu da Costa. A situação de desesperadora miséria e abandono social era uma marca profunda do Cariri cearense nessa época, o que levou Padre Cícero a entrar na política para proteger seus pobres, e apóia a decisão de Floro em posicionar-se ao lado da oligarquia de Nogueira Accioli. Juazeiro do Norte era uma cidade não fazia muito tempo que havia se emancipado do município do Crato. Seu surgimento se deveu a um sonho do Padre Cícero, onde Cristo encarregou-o de cuidar do Juazeiro e de seu povo. Mas após suposto milagre da Beata Maria de Araújo (cuja hóstia teria se transformado em sangue), atraiu o olhar reprovador, a perseguição, o abandono e a excomunhão de sua igreja a qual foi submisso e fiel até seus últimos dias, mas também conquistou uma imensa massa de sertanejos pobres e religiosos que iam ao seu encontro em busca de refrigero para a alma e para o corpo, já que ele matava fome de muitos que o procurava, e também passou a conquistar inimigos entre a pseuda aristocracia cratense que não passava de meia dúzia de coronéis e seus apaniguados. Estes passaram a ver o Padre Cícero como inimigo porque ele acolhia os pobres que fulgiam da exploração e da submissão. Muitos passaram a morar em Juazeiro, de modo que em pouco tempo o local possuía milhares de moradores, e Padre Cícero os ensinavam alguns ofícios e orientava aqueles que tinham profissões a serem multiplicadores e Juazeiro vira uma cidade oficina e oratório. Como não tinha o apoio da alta hierarquia católica, Padre Cícero procurou evitar que Juazeiro tivesse o mesmo fim trágico de Canudos e aliou-se ao poder político dos coronéis. Daí o porquê de muitos ainda hoje, o ter como um padre "coronel de batinas”. Quanto ao Padre amigo de cangaceiros e outra inverdade, como Cristo, o sacerdote veio para os pecadores e não para os livres de pecados. Lampião era mais um afilhado como tantos no sertão nordestino que assim se consideravam, ele só esteve uma vez em Juazeiro do Norte, e entrou sozinho na cidade. Ele enviou um cabra para pedir permissão ao padrinho para entrar, mas Padre Cícero só permitiu a sua entrada, e ele deixou a cabroeira na entrada da cidade e foi pedi sua bênção.

O povo de Juazeiro, porém, não lutou por uma defesa política. Mas para defender o seu o "Padim Ciço". Eles creditaram ser aquela uma agressão contra Padre Cícero, pois a revolta popular foi articulada por Dr. Floro e os acciolinos da região com o objetivo de retomar o governo do Ceará.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Siará


História do Ceará

A história do Ceará tem início com a criação da "Capitania do Siará", O atual nome Ceará vem da palavra tupi que significa canto da jandaia, uma espécie de pequeno papagaio grasnador que se encontra na listra de espécie em via de extinção. Segundo registro do governo colonial português a Coroa concede a capitania do Siará a Antonio Cardoso de Barros em 1535. Uma expedição comandada pelo açoriano Pêro Coelho de Souza fundou na região, a colônia denominada Nova Luzitânia em 1603. Juntamente com o grupo, chegou também um rapaz de 17 anos, Martim Soares Moreno, considerado o verdadeiro fundador do Ceará. Conhecedor da língua e dos costumes indígenas, mantinha amizade fraternal com os nativos, o que lhe valeu fundamental apoio para a derrocada dos franceses e holandeses que também pretendiam colonizar a região. Em 1619, depois de muitas lutas contra invasores estrangeiros, naufrágios e prisões, Soares Moreno obteve uma carta régia que lhe dava o título de Senhor da Capitania do Ceará, lá se fixando por muitos anos. Seu romance com a índia Iracema foi imortalizado pelo escritor brasileiro José de Alencar, em seu livro intitulado "Iracema".

No Ceará, a ocupação se deu a partir de duas rotas distintas: uma pela costa litorânea, saindo de Pernambuco em direção ao Maranhão e Pará, e a outra pelo interior, vinda da Bahia e de Pernambuco, compreendendo a área que vai do médio São Francisco até o rio Parnaíba, nos limites do Piauí e Maranhão. O Sertão cearense foi ocupado através da pecuária extensiva. Seu principal agente - o vaqueiro - correu caatinga a dentro para formar um pequeno rebanho e estabelecer-se.

O Ceará fez parte do Estado do Maranhão e Grão-Pará em 1621. Foi ainda invadido duas vezes, em 1637 e 1649, pelos holandeses que ocupavam a região onde hoje se encontra o Estado de Pernambuco, mantendo-se a ele subordinado até conquistar sua autonomia, em 1799. O desenvolvimento da pecuária em Pernambuco e na Bahia levou criadores a ocuparem o interior do Ceará. As vilas foram se formando junto às grandes fazendas ou nos pontos de descanso das tropas vindas do sul.

A historiografia clássica já demonstrou que a economia pastoril colonial do Ceará significou a presença dominante de homens livres entre os vaqueiros e seus auxiliares, na sua maior parte indígenas. Daí a presença predominante da cultura indígena na nossa formação.

Com a entrada do algodão no circuito exportador (entre 1780 e 1820), as mudanças na estrutura social do sertão se aceleram. No Ceará, algodão e gado não se colocavam como atividades excludentes. Pelo contrário. Eles passam a ser o binômio determinante no nosso sertão.

Em 1824, o Ceará participou da Confederação do Equador, juntamente com os Estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Os principais confederados se encontravam na região do Cariri Cearense. Ali viveu na cidade do Crato a heroína Bárbara Pereira de Alencar, sem dúvida, esta pernambucana de nascimento e cearense de coração é um dos maiores símbolos da mulher caririense. Guerreira, idealista, líder da revolução de 1817 no Cariri.

O Estado começou a se desenvolver na segunda metade do século XIX, com a chegada da navegação a vapor, das estradas de ferro, da iluminação a gás e do telefone. Foi a primeira província brasileira a libertar seus escravos por motivos que nos obrigam a desmistificar os relatos historiográficos de cunho positivista e liberal, de uma abolição “precoce” (1884), e também uma das primeiras províncias a aderir à República.

Na virada deste século, o espaço cearense estava já nitidamente circunscrito: sertão do gado e do algodão, Fortaleza litoral, entreposto comercial. Neste quase cem anos que se seguiram, o sentimento coletivo criou uma espécie de nação cearense, com civilização e cultura próprias, seus artistas e seus sábios, cujas obras no todo refletem a geografia física e social deste pedaço do Brasil.

Cícero

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Historia de Juazeiro do Norte




Vejamos, inicialmente como nasceu à cidade de Juazeiro do Norte no Cariri cearense. A origem se encontra no lançamento da pedra fundamental de uma capelinha em honra de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro de 1827, em uma localidade denominado "Fazenda Tabuleiro Grande" (pertencente ao município de Crato) de propriedade do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, marca o início da história desta cidade sul cearense que é um misto santuário e oficina, uma cidade voltada para o rosário e para o trabalho. À medida que os viajante e tropeiros que faziam cruzavam a fazenda Tabuleiro Grande com direção ao Crato, passaram a pernoitar à margem da velha estrada Missão Velha-Crato, sobre a proteção da ramagem de três frondosos juazeiros existentes em frente à capela de Nossa senhora das Dores. Com o passar do tempo estes pernoites tornou-se constante, e adjacente a capela surgir os primeiros casebres que serviam de moradias e pontos comerciais (bodegas), dando início ao processo de povoamento da atual Juazeiro do Norte. Porém, se deve ao Padre Cícero.

Etimologia: o topônimo Juazeiro deve-se a uma conhecida árvore, muito comum no Nordeste, que resiste à seca mais inclemente, permanecendo sempre viçosa, chamada cientificamente "ziziphus juazeiro". A palavra é híbrida, tupi-portuguesa: jua ou iu-à (fruto de espinho) mais o sulfixo eiro.

Em 1872 chega em “Joazeiro”, Um jovem recém ordenado, Cícero Romão Batista. Oriundo da cidade do Crato, no seminarista da Prainha fez voto de castidade aos doze anos e substituiu o Padre Pedro como capelão da Capela N. S. Das Dores do povoado. O local era um pequeno aglomerado humano com duas pequenas ruas (rua Grande e rua do Brejo), onde habitavam poucas famílias. Entre elas destacavam-se: Macedo, Gonçalves, Sobreira, Landim e Bezerra de Menezes.Um fato extraordinário, acontecido pela primeira vez no dia primeiro de março de 1889, transformou a rotina do lugarejo e a vida do Padre Cícero para sempre. Naquela data, ao participar de uma comunhão reparadora, oficiada pelo Padre Cícero, uma beata muito piedosa, chamada Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, ao receber a hóstia consagrada, não pôde degluti-la porque a mesma se transformou em sangue. O fato repetiu dezenas de vezes e o povo acreditou que se tratava de um novo derramamento de sangue de Jesus, sendo, portanto, um milagre, mas tarde aceito também pelo Padre Cícero e outros sacerdotes da redondeza.

A partir de então história de Juazeiro tomou um novo rumo. A notícia espalhou-se rapidamente, e romarias provenientes de todo o Nordeste chegavam dia após dia para ver os panos manchados de sangue bem como receber bênçãos do Padre Cícero. Muitos destes romeiros passaram a compor a população local.

Apesar de ter sido testemunhado por muitas pessoas dignas, dentre eles dezenas de padres da região e ter sido atestado por dois médicos e um farmacêutico como sendo um fato sobrenatural, a igreja nunca considerou o sangramento da hóstia como um milagre. Por conta das decisões de Roma, Padre Cícero injustamente acusado desobediência e de estimular a crença no pretenso milagre, foi punido pela igreja com a suspensão de suas ordens, ficando proibido de celebrar por muitos anos.

Tem início o comércio religioso, constituindo-se na principal fonte de recursos que financiaram as obras e empreendimentos da cidade. O processo de crescimento da cidade também revela a capacidade de organização social da época e a integração entre vida social, política e religiosa. A característica de composição da população por pessoas de fora, se traduz na diversidade cultural que Juazeiro conserva até hoje. Em 1909 havia em Juazeiro 15.000 habitantes. Foram construídas igrejas, abrigos para romeiros, ruas, escolas, fábricas e comércios. Todo esse processo de evolução teve a igreja como principal empreendedora, doando terrenos para instituições e vários estabelecimentos.

Na primeira década do século XX, o povoado de Juazeiro já havia alcançado um considerado nível de desenvolvimento, mas continuava pertencente ao município de Crato. Isso começou a incomodar os juazeirenses, surgindo daí o desejo de independência. Um movimento emancipalista iniciado por eminentes cidadãos locais e liderado pelo Padre Cïcero, o médico baiano Dr. Floro Bartolomeu da Costa, o Padre Joaquim de Alencar Peixoto e o Professor José Teles Marrocos, culminou com a vitória em 22 de julho de 1911, quando foi assinada a Lei No. 1.028 que elevou o povoado à categoria de Vila e Sede do Município. No dia 4 de Outubro de 1911, a Vila de Juazeiro foi inaugurada oficialmente e o Padre Cícero foi empossado como seu primeiro Prefeito ou Intendente, como se chamava naquela época.

No dia 23 de julho de 1914, através da Lei No. 1.178, a Vila de Juazeiro foi elevada à categoria de Cidade. Esta data, porém, não é comemorada. Prevalece a data de criação do município.

Juazeiro cresceu rapidamente e teve grande participação na história política do país. Em uma das mais marcantes passagens, um levante sai de Juazeiro para depor o governador empossado pelo presidente Hermes da Fonseca. Os romeiros de Juazeiro tomam as cidades do Crato, Barbalha, Campos Sales, Iguatu, Senador Pompeu e Quixeramobim, e cercam a capital do Estado fazendo o Governo Federal voltar atrás e nomear outro interventor, ficando o Padre Cícero como vice-presidente (vice-governador) do Ceará. Em outro momento (1934), Pe. Cícero solicitou verba para formação de um batalhão de combate à Coluna Prestes.

No dia 9 de setembro de 1943, em uma reunião realizada na biblioteca municipal foi adotada a denominação de Juazeiro do Norte. Já neste período grandes obras eram realizadas na cidade, como a construção de hospitais, um matadouro público, o 1o campo de aviação do interior, a escola normal, a Capela de N. S. do Socorro, e as estratégias de convivência com a seca.

No dia 20 de julho de 1934, aos 90 anos, morre o Padre Cícero. Todos os seus bens são doados, via testamento do Padre, à ordem Salesiana.

Após a morte de Padre Cícero as romarias se intensificam ainda mais, dinamizando o comércio local. O artesanato, a arte e o folclore têm impulso com a religiosidade. Artesãos, omerciantes, agricultores, músicos, poetas de cordel e pesquisadores cultivam e difundem a figura mística de Pe. Cícero em suas casas, nas ruas, no comércio e na arte, por todo o Brasil.

Juazeiro do Norte cresce a passos largos, tornando-se em pouco tempo a maior cidade do interior cearense.

Padre Cícero Romão Batista

PADRE CÍCERO

PADRE CÍCERO

Lúcia Gaspar

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

pesquisaescolar@fundaj.gov.br

O Padre Cícero Romão Batista nasceu no dia 24 de março de 1844, no Crato, Ceará, filho de Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana. Foi batizado no dia 8 de abril pelo Padre Manoel Joaquim Aires do Nascimento, tendo como padrinhos seu avô paterno, Romão José Batista e uma tia materna, Antônia Ferreira Catão.

Aos 7 anos, começou a estudar com o professor Rufino de Alcântara Montezuma e fez sua Primeira Comunhão na matriz do Crato. Aos 12 anos, passou a ser aluno do latinista Padre João Marrocos Teles, professor, por concurso, da cadeira de Latim, criada no Crato por D. Pedro I e com essa idade fez o voto de castidade, influenciado pela leitura da vida de São Francisco de Sales, como ele próprio afirma no seu testamento. Seu pai, sabendo dos seus progressos na aula régia do prof. João Marrocos, o matriculou no famoso colégio do Padre Inácio de Sousa Rolim, em Cajazeiras, Paraíba. Em 1862 interrompeu seus estudos e retornou ao Crato para cuidar da sua mãe e irmãs solteiras, devido a morte inesperada de seu pai, vítima da cólera-morbo.

Em março de 1865, ingressou no Seminário de Fortaleza, para seguir a carreira eclesiástica, onde é ordenado em novembro de 1870. Regressando ao Crato, em 1871, cantou a sua primeira missa no altar de Nossa Senhora da Penha, na Matriz do Crato e durante esse ano foi professor no colégio ali fundado por José Marrocos. Em abril de 1872, com 28 anos de idade, retorna ao povoado de Juazeiro, onde fixou residência definitivamente.

Iniciou a melhoria da capela do Juazeiro, dedicada a Nossa Senhora das Dores, padroeira do lugar, onde desenvolveu o seu trabalho pastoral, conquistando, desde então, a simpatia da comunidade.

Em 1889, ocorreu a primeira manifestação dos poderes milagrosos a ele atribuídos, quando a hóstia colocada na boca da beata Maria de Araújo se transformou em sangue. O médico Marcos Madeira atestou como sobrenaturais os fenômenos por ele vistos e estudados das hóstias que se transformavam em sangue. Foi chamado à Fortaleza pelo bispo Dom Joaquim José Vieira para um AUTO DE PERGUNTAS sobre o que estava ocorrendo em Juazeiro, para onde é enviada uma primeira Comissão de Inquérito que confirma o que está ocorrendo e envia ao bispo um relatório considerando todos os fenômenos como sendo coisa divina. O bispo não acata nem acredita no relatório, nomeando uma outra Comissão de Inquérito, tendo à frente o Mons. Antonio Alexandrino de Alencar, que mandou buscar a beata Maria de Araújo ao Crato. Ao ministrar-lhe o hóstia esta não se transforma mais em sangue. A Comissão fez um relatório desmentindo tudo e considerando um embuste o ocorrido em Juazeiro e envia-o ao bispo que o acatou, assinando uma portaria, na qual estipulava as seguintes sanções contra o Padre Cícero: ele não podia mais celebrar em Juazeiro, confessar nem pregar na diocese. Era também terminantemente proibido de falar sobre o assunto dos milagres e atender aos romeiros.

Padre Cícero viajou então a Roma, onde teve uma audiência com o Papa Leão XII sendo absolvido de suas penas. Porém o Bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, publicou a sua pastoral nº 4, decidindo que o sacerdote não poderia celebrar, confessar ou fazer sermões, enquanto não viesse de Roma o decreto de reabilitação.

Proibido de exercer suas funções eclesiásticas, tentou ajudar o povo de Juazeiro através do ingresso na vida política. Com a transformação de Juazeiro em município, foi nomeado pelo governador do Ceará, Nogueira Acioli, prefeito de Juazeiro. Em 1914, a Assembléia Legislativa do Ceará reuniu-se e, por maioria, reconheceu o Padre Cícero como 1º Vice-Governador do Estado.

Em 1916, ele recebeu do novo bispo da diocese do Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, permissão para celebrar na Igreja de Nossa Senhora das Dores, após 24 anos de proibição. Voltando a celebrar começou a receber maior número de romeiros. Alguns comerciantes haviam mandado fabricar medalhas com a sua efígie o que não agradou ao novo bispo. Quando solicitou autorização a Dom Quintino para ser padrinho de uma criança que ia batizar-se, o bispo desgostoso com a notícia de que estavam vendendo medalhas com o retrato do Padre, negou a autorização para apadrinhar e determinou que, a partir daquela data, não mais deveria celebrar.

Ferido, não se revoltou nem reagiu. Aceitou com humildade a decisão do seu bispo, dedicando-se totalmente ao bem da sua cidade de Juazeiro. Era um nome famoso, líder do povo do Nordeste, conselheiro de milhões de pessoas. O povo amava o seu padrinho sofredor. Morreu, no dia 20 de julho de 1934, às 5h da manhã, aos 90 anos, sendo enterrado no dia 21, na presença de mais de 70 mil pessoas.

Recife, 15 de julho de 2003.

(Atualizado em 16 de setembro de 2009).

FONTES CONSULTADAS:

BARBOSA, Geraldo Menezes. História do padre Cícero ao alcance de todos. Juazeiro do Norte:Edições ICVC, 1992. 166p.

OLIVEIRA, Amália Xavier de. O Padre Cícero que eu conheci: a verdadeira história de Juazeiro do Norte. 3.ed. Recife: FJN. Ed. Massangana, 1981. 344p.

COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: Gaspar, Lúcia. Padre Cícero. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.